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Doula, pra quê te quero?

Uma ocupação razoavelmente desconhecida na atualidade pelas construções sociais e novas formas de se relacionar que a urbanização e a vida nas cidades trouxe.


Sabe aquela mulher que cuidava da gestante em seu trabalho de parto e puerpério? Que sabia de parto porque acompanhava as parteiras e entendia sobre as necessidades das parturientes e puérperas?


Essa mulher deixou de existir na sua configuração originária - afinal, nosso novo modelo de saúde está tentando expulsar até as parteiras da cena de parto, que resistem bravamente, só não expulsou porque médico não chega em lugares inóspitos...


As relações sociais mudaram. As mulheres não tem mais o tempo que tinham para cuidar umas das outras, porque novas demandas de igualdade e liberdade chegaram, com isso, o trabalho do cuidado passou a ser remunerado, e aí entra a figura da Doula e de tantas outras profissões ocupadas majoritariamente pelas mulheres.


A ocupação de Doula, assim como dos demais profissionais que atuam com a área da obstetrícia e o fenômeno do nascimento, abdica de dias de lazer, turno de trabalho fixo, estar com a família, amigos ou em festas, para acompanhar a mulher que gesta em seu processo de transformação até o momento sublime e único do nascimento.


É uma profissão que resgata saberes do feminino, dos ciclos, das transformações, do cuidado, do afeto, que tem a sensibilidade de compreender e olhar com carinho para aquela mulher que está transitando rumo a um lugar desconhecido: a maternidade.


Só que, como todas as profissões, precisou se atualizar, repaginar, compreender os avanços científicos, entender o novo cenário do nascimento e cobrar pelos serviços, porque é preciso valorizar o trabalho e o tempo que cada pessoa dedica ao outro.


Para Adriana Tanese Nogueira - Filósofa e Psicanalista - a institucionalização do parto para ambientes hospitalares e aos cuidados exclusivos médicos, afastando completamente as famílias deste evento, fez também com que as mulheres deixassem de ser acompanhadas por outras mulheres.


Esse processo foi seguido de outras práticas - que hoje já se sabem não serem favoráveis para o nascimento - como a não permissão do movimento livre da parturiente, solidão da mulher durante o parto, ausência de intimidade e privacidade, e até mesmo certa passividade da parturiente que deveria ser a estrela do evento.


Ainda, criou-se uma cultura em que o nascimento por via cirúrgica (cesárea) era um parto rápido, indolor e prático, ignorando-se os riscos reais da cirurgia e as dores oriundas do pós-cirúrgico.


O nome da ocupação foi dado em resgate da palavra grega doula que quer dizer "mulher cuidadora". E ela não é uma mulher que cuida, por formação técnica na área da saúde. Ela não está presente nesse cenário para auscultar os batimentos cardíacos fetais, nem pra medir dilatação, nem pra verificar pressão, temperatura, micção e defecação durante o parto, aplicar injeção de ocitocina ou realizar manobras com fórceps ou vácuo extrator.


Ela está para cuidar da mulher como outra mulher que cuida. Apoiar as escolhas, traduzir a terminologia médica, encorajar o movimento e a força da parturiente, trazer alimento, hidratação, carinho, massagem como alívio para dor, auxiliar com as tensões e respiração durante o trabalho de parto, trazer empatia e humanização para cenários que muitas vezes costumam ser frios, sugerir outras posições para que a mulher dê conta do seu processo e travessia gestacional que começou com a fecundação e terminará com o nascimento de seu bebê de uma maneira especial e misteriosa.


A doula jamais decidirá pela parturiente o que ela deseja em seu parto. Ela trará informações para que a própria mulher faça suas escolhas e consiga encontrar a força necessária para confiar no seu processo e confiar na sua intuição, sabendo também discernir o que é procedimento que de fato vai melhorar sua experiência de parto e não cair em falsas indicações (como episiotomia, ocitocina rotineira, enema, posição de litotomia, entre outras).


Então, todas as mulheres deveriam ter uma Doula?


Certamente que não. Isso faz parte das escolhas individuais, de como a pessoa se sente bem e segura, de quem ela deseja ter durante este processo, de como ela vivencia sua vida, suas ideias, suas crenças pessoais. Mas certamente, as que desejam, devem sim ter uma Doula.


Nosso Estado tem a felicidade de já possuir uma Lei que autoriza a entrada da Doula (Lei nº 16.869, de 15 de janeiro de 2016 http://leis.alesc.sc.gov.br/html/2016/16869_2016_lei.html) e que não se confunde com a presença do acompanhante (Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11108.htm), ou seja, ambos podem acompanhar a parturiente e puérpera neste momento tão especial, um ganho imensurável, pois é tornar o ambiente de parto novamente um lugar com pessoas com afinidade com a gestante.


Eu, particularmente, considero que a Doula é também um marco civilizatório, pois para além do direito à saúde, quer se garantir o direito a uma melhor experiência de nascimento, um cuidado com a saúde mental e emocional da mulher, pelo suporte continuo físico e emocional que a Doula oferece.


Ainda, penso que existem três pilares que podem ser trabalhados para que a experiência do parto seja a melhor possível e para mudar para melhor o cenário atual de assistência ao parto e puerpério: 1) Gestante; 2) Profissionais da saúde (obstetras, enfermeiros e técnicos); 3) Ambiente estrutural e recursos disponíveis.


No pilar focado na gestante, o ideal seria que todas as mulheres tivessem acesso sobre a fisiologia do parto e nascimento, às práticas hospitalares e outras formas possíveis de nascer, acesso à atividades físicas e dietas apropriadas. Neste pilar, está incluso o próprio trabalho da Doula, ou seja, a atuação como educadora perinatal pode influenciar positivamente a experiência do nascimento, já que a mulher chega mais preparada sobre o que é esperado que ocorra com seu corpo nessa trajetória.


No pilar focado nos profissionais da saúde, está a melhoria dos salários, redução de sobrecargas de jornadas e excesso de pacientes, incentivo financeiro à atualização sobre parto e nascimento e acesso à saúde mental a estes profissionais, que trabalham sob grande pressão. O atendimento ideal sempre será do cuidado de um para um, e no caso das gestantes, precisa ser de dois para um, afinal, um bebê vai nascer. A Doula é a profissional que mais se aproxima desse cuidado, principalmente quando a opção da gestante é a maternidade pública.


No pilar focado no ambiente estrutural e recursos disponíveis está uma mudança de paradigma: sair do cenário do medo e se entender o nascimento como algo natural da vida, e não como uma doença ou uma bomba relógio matadora de bebês. As estruturas de parto deveriam se parecer muito mais com uma casa do que com um hospital. O hospital é para emergências médicas e claro que deve ter uma prontidão entre um atendimento e outro.


As casas de parto entram nesse cenário como um modelo muito mais amistoso para o nascimento e favorável para boas experiências, que certamente gerariam menos tensão nas mães de primeira viagem. E a oferta de recursos, como as maternidades terem sempre alimentações energéticas que de fato reponham o que a parturiente gastou durante o trabalho de parto e permitirem que a parturiente se recupere tranquilamente, tome seu banho depois do parto e tenha toda a assistência necessária para o seu bem-estar.


Que maravilhoso será quando a prioridade da nossa sociedade seja ofertar boas estruturas e assistência para as mulheres e seus filhos, desde o começo da existência do lado de fora da primeira morada. E ai, já sabe pra que você gostaria de ter uma Doula?




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